A regulamentação do Marco Legal dos Jogos Eletrônicos, instituído pela Lei nº 14.852/2024, estabelece novas diretrizes para o desenvolvimento da indústria brasileira de games. Assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 14 de outubro, o decreto Desenvolve Gamers Brasil prevê iniciativas de financiamento, incentivo à produção nacional, capacitação profissional e divulgação de jogos desenvolvidos no país.
Entre as medidas anunciadas está a proposta de reduzir de R$ 500 mil para R$ 150 mil o valor mínimo dos empréstimos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), além de diminuir os juros. A iniciativa busca ampliar o acesso ao crédito, especialmente para estúdios que encontram dificuldades para financiar seus projetos.

Outra frente é o Rouanet Games, programa destinado a orientar desenvolvedoras na captação de patrocínios por meio da Lei Rouanet. Na área de tecnologia, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) propõe uma chamada pública de R$ 200 milhões, por meio da Finep, voltada a startups e projetos tecnológicos.
A formação de profissionais também integra o pacote de iniciativas. O Ministério da Educação (MEC) prevê a oferta de cursos de graduação relacionados ao desenvolvimento de jogos em cinco universidades federais, com um total de 230 vagas. Já a plataforma pública Game Brasil deverá funcionar como um espaço de divulgação da produção nacional.

Proteção de menores e propriedade intelectual
Além das medidas econômicas e educacionais, a regulamentação estabelece diretrizes relacionadas à proteção de crianças e adolescentes, à acessibilidade, aos direitos de propriedade intelectual e à preservação de jogos desenvolvidos com recursos públicos.
Os fantasy games, modalidade que apresenta características próximas ao universo das apostas, ficaram fora da regulamentação anunciada.
A dimensão do mercado ajuda a contextualizar a iniciativa. Segundo dados apresentados pelo governo federal, o Brasil contabilizou aproximadamente 123,3 milhões de jogadores em 2025. No setor produtivo, o número de desenvolvedoras de jogos eletrônicos passou de 133, em 2014, para 1.042, em 2023.
Apesar das medidas previstas, a implementação de parte dos incentivos ainda depende de regulamentações complementares, editais e definições sobre os mecanismos de acesso aos recursos. A divulgação da íntegra do decreto também é necessária para esclarecer o alcance jurídico das disposições e as condições para sua aplicação.
O que muda para quem desenvolve jogos no Brasil?

A aplicação das novas regras levanta questões sobre o acesso de estúdios independentes às linhas de financiamento, o enquadramento dos games como produtos culturais e os direitos sobre obras desenvolvidas com dinheiro público.
Para analisar esses pontos, a advogada Camila Betanin, especialista em Direito Digital, Direito Gamer e e-sports e fundadora do escritório Betanin & Leal Advocacia, pode contribuir com esclarecimentos sobre os efeitos jurídicos da regulamentação. Entre os temas relevantes estão os requisitos para acessar os incentivos anunciados, as implicações para a propriedade intelectual e a relação entre as medidas de proteção de crianças e adolescentes e o ECA Digital.
A exclusão dos fantasy games também está entre as questões que merecem atenção, especialmente pelas diferenças jurídicas entre jogos eletrônicos e atividades relacionadas a apostas. A efetividade das iniciativas anunciadas dependerá, em parte, das regras complementares e dos mecanismos que serão estabelecidos para viabilizar sua execução.

