Camila Betanin aponta desafios para estúdios brasileiros acessarem incentivos do Marco Legal dos Games

A regulamentação do Marco Legal da Indústria de Jogos Eletrônicos abre novas possibilidades para o desenvolvimento de games no Brasil, mas o acesso efetivo aos recursos públicos e a segurança jurídica das empresas ainda são desafios para o setor. Essa é a avaliação de Camila Betanin, advogada especialista em Direito Digital, Direito Gamer e e-sports e fundadora do escritório Betanin & Leal Advocacia.

Para a especialista, o reconhecimento dos jogos eletrônicos como parte da cultura nacional precisa ser acompanhado de medidas que permitam aos estúdios transformar os incentivos anunciados em oportunidades concretas de crescimento. Isso envolve tanto a atuação do poder público na implementação das políticas quanto a preparação das empresas para atender às exigências legais e financeiras.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou, em 14 de outubro, o decreto que regulamenta a Lei nº 14.852/2024. Entre as iniciativas previstas estão a ampliação das possibilidades de acesso a mecanismos federais de fomento e a criação da plataforma pública Game Brasil, destinada à divulgação e promoção de produções nacionais.

O cenário apresenta potencial econômico relevante. O Brasil reunia cerca de 123,3 milhões de jogadores em 2025, enquanto o número de desenvolvedoras passou de 133, em 2014, para 1.042, em 2023. Também foi anunciada uma chamada pública de R$ 200 milhões da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), voltada a startups de jogos e soluções digitais inovadoras.

Acesso ao financiamento exige atenção

Apesar da expansão do mercado e da perspectiva de novos investimentos, Betanin destaca que a existência de linhas de financiamento não garante que os recursos alcancem empresas de diferentes portes. Uma pesquisa da Associação Brasileira das Desenvolvedoras de Jogos Digitais (Abragames), em parceria com a ApexBrasil, indicou que 60% das 297 desenvolvedoras consultadas nunca haviam utilizado financiamento público.

Na avaliação da advogada, a efetividade dos incentivos depende de critérios transparentes e acessíveis, capazes de contemplar também estúdios independentes e empresas menores. Sem condições adequadas de participação, parte dos desenvolvedores pode encontrar dificuldades para aproveitar as oportunidades abertas pela regulamentação.

A preparação jurídica e administrativa é outro ponto de atenção. A participação em editais de financiamento pode exigir documentação específica, organização financeira e cumprimento de obrigações previstas nos instrumentos de concessão. Erros ou pendências podem comprometer a habilitação dos projetos e, conforme as condições estabelecidas, gerar a obrigação de devolver valores recebidos.

Propriedade intelectual e proteção de dados

A advogada também chama a atenção para a proteção da propriedade intelectual, um dos ativos centrais da indústria de jogos. Um mesmo título pode reunir código de software, personagens, ilustrações, trilha sonora e roteiro, elementos que demandam atenção às diferentes formas de proteção jurídica.

A formalização dos direitos de desenvolvedores, artistas, roteiristas e demais profissionais envolvidos é importante para evitar disputas sobre autoria, titularidade e exploração comercial. A análise de contratos de cessão e autorização de uso também pode contribuir para reduzir riscos em negociações com distribuidoras, investidores e parceiros internacionais.

Nesse contexto, Betanin ressalta que a segurança jurídica não deve ser tratada apenas como uma obrigação burocrática. A organização contratual e a clareza sobre os direitos de cada parte podem favorecer a atração de investimentos e ampliar as possibilidades de comercialização dos jogos dentro e fora do país.

Marco Legal dos Games
Marco Legal dos Games

Outro aspecto envolve a proteção de crianças e adolescentes e o tratamento de dados pessoais. Controles parentais, compras dentro dos jogos e mecanismos de recompensa aleatória, conhecidos como loot boxes, exigem avaliação das normas aplicáveis. A adequação à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e às regras de proteção de menores deve integrar o planejamento dos produtos desde o desenvolvimento.

A especialista ainda destaca a importância de distinguir os jogos eletrônicos das atividades de apostas e jogos de azar, submetidas a regimes jurídicos próprios. A classificação depende das características concretas de cada produto, incluindo seus mecanismos de participação, aleatoriedade e premiação, e não apenas da denominação comercial utilizada.

Regulamentação precisa gerar resultados concretos

Na análise de Camila Betanin, o avanço regulatório precisa ser acompanhado pela implementação efetiva das medidas anunciadas e por condições que permitam aos estúdios estruturar seus negócios de maneira sustentável. O desafio não se limita ao reconhecimento cultural dos games, mas envolve criar um ambiente favorável ao financiamento, à proteção das criações e à competitividade da produção nacional.

A atuação do poder público será determinante para tornar os incentivos acessíveis, enquanto os desenvolvedores precisarão acompanhar as exigências legais e preparar seus projetos para aproveitar as oportunidades disponíveis.

A regulamentação estabelece uma nova etapa para a indústria brasileira de jogos eletrônicos. Seu alcance, porém, dependerá da capacidade de converter as diretrizes em condições reais para que os estúdios nacionais desenvolvam, financiem e comercializem suas produções.

Presidente Lula regulamenta “Marco Legal dos Games” e anuncia incentivos para o setor

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou nesta quarta-feira (14), no Palácio do Planalto, o decreto Desenvolve Gamers Brasil, que regulamenta o Marco Legal da Indústria de Jogos Eletrônicos (Lei nº 14.852/2024). A medida prevê ações para facilitar o financiamento de desenvolvedoras, ampliar a formação profissional e fortalecer a produção brasileira de jogos.

Entre as novidades estão propostas de crédito com juros reduzidos, incentivos fiscais, investimentos em inovação e a criação de uma plataforma gratuita para divulgar títulos nacionais. As iniciativas buscam fortalecer os estúdios brasileiros e ampliar a presença de seus jogos no mercado.

Presidente Lula regulamenta o Marco Legal dos Games
Presidente Lula regulamenta o Marco Legal dos Games

Crédito e incentivos para jogos brasileiros

A Agência Nacional do Cinema (Ancine) pretende propor a redução do valor mínimo dos empréstimos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), de R$ 500 mil para R$ 150 mil. A proposta também prevê diminuir os juros de TR mais 2% para TR mais 0,5% ao ano. O fundo tem previsão de R$ 460 milhões em crédito para a indústria audiovisual em 2026, incluindo os games.

Para 2027, o Ministério da Cultura prevê duas iniciativas de captação pela Lei do Audiovisual, com estimativa de R$ 50 milhões cada. Os recursos serão destinados à infraestrutura de desenvolvimento e ao apoio à produção, ao lançamento e à comercialização de jogos independentes.

Outra novidade é o Rouanet Games, programa que oferecerá orientação e capacitação para desenvolvedores interessados em buscar patrocínios por meio da Lei Rouanet.

Para a comunidade gamer, o fortalecimento dos estúdios nacionais pode favorecer o surgimento de novos títulos e ampliar a diversidade de jogos disponíveis. Entretanto, os resultados dependerão da implementação das medidas e do acesso efetivo das empresas aos recursos.

Presidente Lula regulamenta o Marco Legal dos Games
Marco Legal dos Games

Game Brasil vai reunir informações sobre jogos nacionais

O decreto institui o Game Brasil, plataforma pública e gratuita que reunirá informações sobre jogos brasileiros, seus desenvolvedores e as plataformas em que estão disponíveis. O investimento inicial previsto é de R$ 1,4 milhão.

A iniciativa poderá facilitar a descoberta de produções nacionais, especialmente de estúdios independentes que possuem menos recursos para divulgação. Com maior visibilidade, esses jogos poderão alcançar novos públicos e ampliar suas oportunidades de comercialização.

O governo também prevê a criação de cursos de graduação relacionados ao desenvolvimento de jogos em cinco universidades federais, com 230 vagas pactuadas. A partir de 2027, a Escola Solano Trindade de Cultura e Economia Criativa deverá oferecer seis cursos específicos, incluindo formações em desenvolvimento de jogos digitais.

Na área de inovação, a Finep propõe uma chamada pública de R$ 200 milhões para apoiar startups que desenvolvam jogos e soluções digitais. Também está previsto o programa Talentos, com estimativa de R$ 100 milhões em investimentos privados entre 2027 e 2028 para capacitação em inteligência artificial, computação gráfica e realidade virtual. A execução dessas iniciativas depende das aprovações e regulamentações necessárias.

Marco Legal dos Games
Marco Legal dos Games

Decreto também prevê proteção aos jogadores

A regulamentação inclui diretrizes de proteção à saúde dos usuários, prevenção de riscos associados ao uso de jogos eletrônicos e acessibilidade. A proteção de crianças e adolescentes deverá observar as normas do ECA Digital.

O texto também contempla medidas para simplificar a importação de ferramentas utilizadas no desenvolvimento de jogos e fortalecer a proteção da propriedade intelectual. Um comitê interministerial deverá acompanhar a implementação das políticas para o setor.

Essas medidas podem contribuir para um ambiente de jogos mais acessível e seguro, embora sua aplicação dependa de regulamentações complementares e da atuação dos órgãos responsáveis.

Brasil é um dos principais mercados de games

Segundo dados da consultoria Newzoo citados pelo governo, o Brasil tinha aproximadamente 123,3 milhões de jogadores em 2025 e movimentou US$ 2,7 bilhões no setor, ocupando a nona posição mundial em receita.

O número de desenvolvedoras brasileiras passou de 133, em 2014, para 1.042, em 2023. Apesar do crescimento, o financiamento continua sendo um desafio: pesquisa da Abragames e da ApexBrasil apontou que 60% das 297 empresas consultadas nunca haviam utilizado recursos públicos para financiar suas atividades.

Com a regulamentação do Marco Legal dos Games, o governo busca ampliar as oportunidades para desenvolvedoras brasileiras e fortalecer a indústria nacional. Para os jogadores, as medidas poderão facilitar o acesso a produções locais e contribuir para a chegada de novos títulos ao mercado.

Gamescom Latam | Os destaques do estande da Abragames

A Associação Brasileira das Desenvolvedoras de Games, Abragames, está com um impressionante estande na Gamescom Latam. O espaço permite ao público testar jogos e dar um feedback rápido para os desenvolvedores ali no local.

O espaço conta com 10 jogos em desenvolvimento, de diversos estilos. Os projetos, em sua maioria, estão em estágios bastante iniciais de desenvolvimento, alguns sem previsão de lançamento. Destacamos aqui os jogos que mais chamaram a atenção:

Bagdex

Esse título já é bem conhecido pela comunidade. Visando ser uma espécie de Pokémon usando elementos da cultura brasileira, o jogo segue em desenvolvimento e conta com uma demo na Steam. Vem crescendo e gerando uma grande expectativa no público, e a qualidade vista no evento faz jus.

O jogo, inclusive, tem uma demo na Steam — acesse ela aqui.

Blackthorne Keep

Blackthorne Keep

Desenvolvedora: Limiar Studios.

Um jogo de RPG de ação com gráficos realistas, prometendo uma ambição visual nunca antes vista em um jogo nacional. O jogo tem inspirações em títulos como Greedfall e For Honor.

Sem previsão de lançamento, está sendo desenvolvido por uma equipe de 12 pessoas, e atualmente busca uma publisher.

Página da Steam: wishlist

Matinta

Matinta

Desenvolvedora: Éter Games.

Jogo inspirado no folclore brasileiro, em que o jogador controla uma cachorrinha vira-lata da cor roxa chamada Gracinda. Na demo, o objetivo é explorar e purificar um pântano. Lembra Okami e Stray. O jogo mescla desafios de plataforma e puzzle. Um dos melhores que encontramos no estande da Abragames.

Ainda que muito cru, o projeto mostrou muito potencial. A ambientação promete ser a grande cereja do bolo e também bastante desafiadora.

Página na Steam: wishlist

Play Friends

Play Friends

Desenvolvedor: Plot Kids

Uma espécie de Mario Party, em que o jogador adquire o jogo na Steam e joga pelo celular com os amigos.

Com minigames extremamente divertidos que envolvem a tela do celular.

Na demo disponível no estande da Abragames foi possível experimentar um jogo da memória em que o desafio era encontrar o desenho que estava na TV na tela do celular. Outro minigame consistia em derrubar o adversário da plataforma usando o celular como joystick. Já no terceiro, era necessário defender um navio destruindo esferas por meio de desenhos feitos na tela do celular.

O jogo tem previsão de lançamento para 2026 e está em fase inicial de desenvolvimento, mas conta com uma demo — confira ela aqui.

Bermuda Triangle: Knockout!

Bermuda Triangle: Knockout! - Abragames

Desenvolvedor: Hype

Um jogo de luta que mistura Celeste e Smash Bros., em que o jogador precisa se manter em posse de uma máscara.

Visualmente impressionante, com belas animações e um bom design de personagens, o jogo traz técnicas fáceis de aprender, mas que certamente serão difíceis de dominar.

Previsão de lançamento: 2026
Página na Steam: wishlist

Texto: Victor Candido