Marco Legal dos Games: Camila Betanin aponta desafios para transformar regulamentação em oportunidades para estúdios brasileiros

A regulamentação do Marco Legal da Indústria de Jogos Eletrônicos pode ampliar as oportunidades para desenvolvedores brasileiros, mas o acesso aos incentivos e a segurança jurídica ainda dependem de medidas complementares. Essa é a avaliação de Camila Betanin, advogada especializada em Direito Digital, Direito Gamer e e-sports, que destaca a necessidade de transformar o reconhecimento dos games como parte da cultura nacional em condições concretas para o crescimento do setor.

Em 14 de outubro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou o decreto que regulamenta a Lei nº 14.852/2024. Entre as medidas estão a ampliação das possibilidades de acesso a mecanismos federais de fomento, a simplificação de procedimentos de importação de ferramentas utilizadas no desenvolvimento de jogos e a criação da plataforma pública Game Brasil, destinada à promoção de produções nacionais.

Presidente Lula regulamenta o Marco Legal dos Games
Presidente Lula regulamenta o Marco Legal dos Games

Na análise de Betanin, a regulamentação representa um avanço para uma indústria que reúne atividades culturais, tecnológicas e econômicas. No entanto, a especialista ressalta que o anúncio de incentivos não significa que todos os desenvolvedores já possam acessá-los. As iniciativas relacionadas ao Fundo Setorial do Audiovisual e à Lei Rouanet, por exemplo, ainda dependem de regras específicas para definir os procedimentos e as condições de participação.

Essa etapa será especialmente relevante para estúdios independentes, que nem sempre dispõem de equipes jurídicas e administrativas para lidar com exigências burocráticas. Para que os mecanismos de fomento alcancem empresas de diferentes portes, será necessário estabelecer critérios claros e procedimentos compatíveis com a realidade dos desenvolvedores.

Preparação jurídica pode determinar acesso aos incentivos

Além da regulamentação dos mecanismos de financiamento, Betanin chama a atenção para a necessidade de organização jurídica por parte dos estúdios. A busca por recursos públicos exige documentação regularizada, controle financeiro, contratos formalizados e acompanhamento das condições estabelecidas nos editais.

A formalização dos direitos autorais também é fundamental. Como um jogo pode reunir programação, personagens, ilustrações, músicas e roteiros produzidos por diferentes profissionais, os estúdios precisam definir contratualmente como esses elementos poderão ser utilizados e explorados comercialmente.

Marco Legal dos Games
Marco Legal dos Games

A especialista destaca que falhas documentais ou o descumprimento das condições de financiamento podem levar à inabilitação de projetos e, conforme as regras aplicáveis, à obrigação de devolver os recursos recebidos. Por isso, a preparação jurídica deve acompanhar o desenvolvimento do jogo desde as primeiras etapas, em vez de começar apenas quando surge uma oportunidade de financiamento.

Outro ponto envolve a proteção da propriedade intelectual. A regulamentação preserva os direitos previstos na Lei de Software e na Lei de Direitos Autorais, além de prever a atuação do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) em questões relacionadas ao registro dos jogos para fins de propriedade industrial.

O financiamento público não implica automaticamente a transferência dos direitos sobre a obra ao Estado. Ainda assim, a análise das cláusulas dos editais e a formalização das autorizações de uso e cessões de direitos são medidas importantes para evitar conflitos e preservar o valor comercial das produções.

LGPD e proteção de crianças também exigem atenção

Camila Betanin
Camila Betanin

A avaliação da advogada também abrange as responsabilidades dos desenvolvedores em relação aos jogadores. A profissionalização do mercado exige atenção à proteção de crianças e adolescentes, ao tratamento de dados pessoais e às funcionalidades que podem apresentar riscos aos usuários.

Entre os aspectos que merecem análise estão a coleta de informações pessoais, os controles parentais, as compras dentro dos jogos e as loot boxes, sistemas de recompensas aleatórias presentes em determinados títulos. O enquadramento jurídico dessas funcionalidades depende de suas características e das normas aplicáveis a cada situação.

Betanin ressalta a importância de considerar a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e as regras de proteção de menores desde o desenvolvimento dos jogos. A adequação às exigências legais não deve ser tratada apenas como uma providência posterior ao lançamento, mas como parte do planejamento dos produtos e das responsabilidades das empresas.

Marco Legal não resolve o enquadramento de todas as modalidades

A distinção entre jogos eletrônicos e atividades relacionadas a apostas é outro ponto abordado pela especialista. Segundo a análise apresentada, a regulamentação do Marco Legal não estabelece um regime geral para apostas e jogos de azar, enquanto os fantasy games não são mencionados expressamente no decreto.

A ausência de previsão específica, contudo, não determina por si só como todas essas modalidades devem ser classificadas. O enquadramento depende das características de cada atividade, incluindo seus mecanismos de funcionamento, a presença de elementos aleatórios e os sistemas de premiação.

Essa diferenciação é importante para que o reconhecimento cultural e econômico dos jogos eletrônicos não seja confundido com as regras aplicáveis a outros modelos de negócio.

Presidente Lula regulamenta o Marco Legal dos Games
Marco Legal dos Games

Implementação será decisiva para o desenvolvimento nacional

O Brasil contava com aproximadamente 123,3 milhões de jogadores em 2025, enquanto o número de desenvolvedoras passou de 133, em 2014, para 1.042, em 2023. Os números dimensionam o mercado no qual as medidas previstas pelo Marco Legal poderão produzir efeitos.

Para Betanin, o reconhecimento dos jogos eletrônicos como parte da cultura nacional precisa ser acompanhado de políticas efetivas de financiamento, regras acessíveis e segurança jurídica. A regulamentação abre possibilidades para o setor, mas sua contribuição para o desenvolvimento da indústria dependerá da implementação dos mecanismos anunciados e das condições oferecidas aos estúdios para aproveitá-los.

Camila Betanin é advogada especializada em Direito Digital, Direito Gamer e e-sports, e fundadora do escritório Betanin & Leal Advocacia.

Presidente Lula regulamenta “Marco Legal dos Games” e anuncia incentivos para o setor

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou nesta quarta-feira (14), no Palácio do Planalto, o decreto Desenvolve Gamers Brasil, que regulamenta o Marco Legal da Indústria de Jogos Eletrônicos (Lei nº 14.852/2024). A medida prevê ações para facilitar o financiamento de desenvolvedoras, ampliar a formação profissional e fortalecer a produção brasileira de jogos.

Entre as novidades estão propostas de crédito com juros reduzidos, incentivos fiscais, investimentos em inovação e a criação de uma plataforma gratuita para divulgar títulos nacionais. As iniciativas buscam fortalecer os estúdios brasileiros e ampliar a presença de seus jogos no mercado.

Presidente Lula regulamenta o Marco Legal dos Games
Presidente Lula regulamenta o Marco Legal dos Games

Crédito e incentivos para jogos brasileiros

A Agência Nacional do Cinema (Ancine) pretende propor a redução do valor mínimo dos empréstimos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), de R$ 500 mil para R$ 150 mil. A proposta também prevê diminuir os juros de TR mais 2% para TR mais 0,5% ao ano. O fundo tem previsão de R$ 460 milhões em crédito para a indústria audiovisual em 2026, incluindo os games.

Para 2027, o Ministério da Cultura prevê duas iniciativas de captação pela Lei do Audiovisual, com estimativa de R$ 50 milhões cada. Os recursos serão destinados à infraestrutura de desenvolvimento e ao apoio à produção, ao lançamento e à comercialização de jogos independentes.

Outra novidade é o Rouanet Games, programa que oferecerá orientação e capacitação para desenvolvedores interessados em buscar patrocínios por meio da Lei Rouanet.

Para a comunidade gamer, o fortalecimento dos estúdios nacionais pode favorecer o surgimento de novos títulos e ampliar a diversidade de jogos disponíveis. Entretanto, os resultados dependerão da implementação das medidas e do acesso efetivo das empresas aos recursos.

Presidente Lula regulamenta o Marco Legal dos Games
Marco Legal dos Games

Game Brasil vai reunir informações sobre jogos nacionais

O decreto institui o Game Brasil, plataforma pública e gratuita que reunirá informações sobre jogos brasileiros, seus desenvolvedores e as plataformas em que estão disponíveis. O investimento inicial previsto é de R$ 1,4 milhão.

A iniciativa poderá facilitar a descoberta de produções nacionais, especialmente de estúdios independentes que possuem menos recursos para divulgação. Com maior visibilidade, esses jogos poderão alcançar novos públicos e ampliar suas oportunidades de comercialização.

O governo também prevê a criação de cursos de graduação relacionados ao desenvolvimento de jogos em cinco universidades federais, com 230 vagas pactuadas. A partir de 2027, a Escola Solano Trindade de Cultura e Economia Criativa deverá oferecer seis cursos específicos, incluindo formações em desenvolvimento de jogos digitais.

Na área de inovação, a Finep propõe uma chamada pública de R$ 200 milhões para apoiar startups que desenvolvam jogos e soluções digitais. Também está previsto o programa Talentos, com estimativa de R$ 100 milhões em investimentos privados entre 2027 e 2028 para capacitação em inteligência artificial, computação gráfica e realidade virtual. A execução dessas iniciativas depende das aprovações e regulamentações necessárias.

Marco Legal dos Games
Marco Legal dos Games

Decreto também prevê proteção aos jogadores

A regulamentação inclui diretrizes de proteção à saúde dos usuários, prevenção de riscos associados ao uso de jogos eletrônicos e acessibilidade. A proteção de crianças e adolescentes deverá observar as normas do ECA Digital.

O texto também contempla medidas para simplificar a importação de ferramentas utilizadas no desenvolvimento de jogos e fortalecer a proteção da propriedade intelectual. Um comitê interministerial deverá acompanhar a implementação das políticas para o setor.

Essas medidas podem contribuir para um ambiente de jogos mais acessível e seguro, embora sua aplicação dependa de regulamentações complementares e da atuação dos órgãos responsáveis.

Brasil é um dos principais mercados de games

Segundo dados da consultoria Newzoo citados pelo governo, o Brasil tinha aproximadamente 123,3 milhões de jogadores em 2025 e movimentou US$ 2,7 bilhões no setor, ocupando a nona posição mundial em receita.

O número de desenvolvedoras brasileiras passou de 133, em 2014, para 1.042, em 2023. Apesar do crescimento, o financiamento continua sendo um desafio: pesquisa da Abragames e da ApexBrasil apontou que 60% das 297 empresas consultadas nunca haviam utilizado recursos públicos para financiar suas atividades.

Com a regulamentação do Marco Legal dos Games, o governo busca ampliar as oportunidades para desenvolvedoras brasileiras e fortalecer a indústria nacional. Para os jogadores, as medidas poderão facilitar o acesso a produções locais e contribuir para a chegada de novos títulos ao mercado.