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Do leitor: como o seu jogo vai mudar a realidade da minha vida

Hoje, no GameReporter, uma reflexão do leitor Igor Cardoso Tomaz a respeito do impacto dos videogames na vida real.

“Eu lembro que quando eu era moleque (e você deve conhecer um conto assim) minha vó contava a história que meu tio, inspirado no super-homem, pegou um lençol, subiu numa goiabeira e se jogou de lá. Aposto que foram os milissegundos mais emocionantes da vida dele, mas certamente o vôo não saiu como ele esperava.

No fim da história, a grande maioria dos ouvintes ria, outros tinham com pena, outros culpavam meu tio ou meus avôs pela insanidade. Absurdos como estes hoje são raridades e casos isolados, (até porque temos cada vez menos árvores), mas é cada vez mais comum encontrar notícias sobre incidentes iniciados na esfera virtual com resultados na vida real.

Faz pouco tempo que o governo da Coréia do Sul baixou uma série de medidas legais para limitar jogos e os horários de Lan-Houses por causa do crescente número de assassinatos e mortes. De verdade. Quer dizer, ao invés do perdedor se vingar do Head Shot cinematográfico que ele tomou, fazendo algo igualmente extraordinário (eu me vingo na faca) dentro do jogo… Nahhh…  Tú matou meu avatar? Agora eu vou killar você e toda sua família de verdade! Ratá-tá-tá! Pronto… “Tá lá o corpo estendido no chão/em frente a porta de uma lan-house/”

Muito fora da realidade do Brasil? Então tá. Quem não fez parte conhece alguém de um clã? Quem nunca ouviu falar de jogadores, que dividiam equipamento, XP e até namorada, se jurarem de morte, acabar com a amizade, sair no braço porque você o outro foi o responsável pelo Defeat vergonhoso e irreparável do clã? Pior, para o clã rival!

Já existe, mas aumentam o número de profissionais que usam jogos ou plataformas em atividades reais. Fisioterapeutas usando Nintendo Wii como terapia complementar para lesões em articulações ou para recuperar equilíbrio. Oftalmologistas que recomendam Guitar Hero para treinar acuidade visual e reflexo visual-cognitivo. E assim vai.

A questão aqui não é discutir se clãs, futebol, lan-houses ou o vídeo-game é bom ou mau, mas sim como você, desenvolvedor de jogos (ou Game-Designer) vai lidar com a interferência que seu jogo vai pode causar na sociedade.

Em toda competição, virtual ou real existem diferenças, mas o ideal é que estas diferenças nasçam e morram dentro do campo de futebol ou da Session do jogo. Pra mim, o que acontece em Vegas, fica em Vegas, mas para alguns, a imersão nos games é tão forte que é difícil reconhecer o que é real e o que não é.

Duvido que Hiroshi Matsumoto quando desenvolveu Street Fighter iria algum dia imaginar que uma pessoa que NUNCA jogou o jogo fosse soltar gritar um “Hadooooouken!” quando desse ou recebesse aquele fora fenomenal. (Dia desses levei um hadouken do síndico). O hadouken nasceu no vídeo-game, mas diariamente está sendo incorporado na linguagem cotidiana das pessoas. Modismo? E daí?

O importante é observar que o golpe do Ryu saiu dos games de luta e agora está na ponta da língua de pessoas que na rodinha de amigos estão babando ansiosas, esperando algum coitado amigo levar um fora de alguém para poder gritar um sonoro “Hadouken”, com a mesma intensidade de um jogador em final de campeonato que se salva por causa do golpe. Não raro, são pessoas que nem sequer colocaram um joystick na mão, sabem o que é uma meia-lua + soco, ou quiçá conhecem esse mané do Ryu! Isto meus amigos desenvolvedores é o vídeo-game mudando comportamentos na vida real.

A barreira do real e do virtual é não é mais determinada pelo meio onde se está, mas sim pela experiência vivida pelo usuário. E nos games a imersão é quase total. É isso que faz um jogador coreano matar o outro, uma mãe cuidar mais da Colheita Feliz do Orkut do que de você seus filhos, uma pessoa aprender inglês sozinho pra passar de nível, uma pessoa gritar hadouken e um médico receitar Rock Band.

A imersão não é exclusiva dos games, afinal de contas, meu tio não estava jogando nada quando pulou da árvore, ele estava (vi)vendo um desenho, mas ele podia ter se inspirado em peças de teatros, quadros, livros, músicas, filmes, no Google ou em jogos de vídeo-game. Fato é que ele não saube identificar o que era virtual e o que era real e por isso ele pulou.

Acontece que pelo mesmo motivo várias obras já foram ou ainda são proibidas, queimadas, limitadas, censuradas ou legalmente julgadas pelo poder de interferência na vida das pessoas. Então quando for desenvolver, pense qual vai ser nível potencial do SEU jogo. E mais, como você vai lidar com isso. Fica aí um puzzle pra pensar depois de zerar o seu game favorito.”

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