Marca meia hora aí, por favor?

Era primavera de 1992, as locadoras de games já faziam parte da mesma  realidade das locadoras de filmes, assim, para diferenciá-las, às primeiras inseríamos o termo “de games”, tendo em vista que as segundas já dominavam o termo solo “locadoras”. De fato, um videocassete também era um equipamento tão ou mais caro que um console e não custa lembrar que somente um vizinho por quarteirão era permitido possuir um videocassete (sim, era quase uma norma), tornando a sociabilidade tão interessante na hora de ver o filme quanto jogar um Atari 2600 na casa do coleguinha, em que todo mundo jogava e você somente olhava. Não que ambas estivessem pari passu (em pé de igualdade), mas uma locadora de game ainda era vista como algo de “viciados em games”. Sim, ser garoto nos anos 90 exigia também uma certa moderação, sabe aquela dos comerciais de cerveja? “Beba com moderação”. Na época era: “jogue com moderação, à custa de ser chamado de viciado por toda cidade”. Aliás, era comum gritarem, “oh, joão viciado”, “oh joão quatrocentão” (esta história dos quatrocentos fica mais para frente, pois faz parte de um furto do qual fui acusado com o colega Quitão, era esse o apelido do cara).

Enfim, à época, minha cidade tinha seus 60.000 habitantes e contava com duas grandes locadoras de games, geralmente donos de grandes supermercados, retíficas de motores, depósitos de material de construção, etc. Mais tarde, soube que os donos das locadoras as abriam não pela lucratividade do setor, mas devido ao apelo de suas proles endinheiradas, sedentas por consoles de games, hhhuuuhhhhhh (aqui ficou um cenário meio apocalíptico, mas o desejo por jogar meia horinha que fosse ficava na nossa mente todo dia, quase como uma droga, uma mistura de sede com fome, cuja vontade passava quando o coleguinha chamava a gente pra jogar bola no campinho da esquina, daí passava, depois de enfiar uns espinhos no pé e tomar 3 copos d’água pra refrescar o calor).

Assim, aconteceu que pedi ao meu bondoso pai para me levar a uma dessas lojas de jogos. Para espairecer, ele disse: – Tudo bem, vamos dar uma volta e ver umas morenas. Ao que eu disse: – Não, pai, vou te mostrar o Sonic “de redigerrog” do Mega Drive. Ao passo que ele disse: – O que é isso, “redigerrog”? Esquece, vamos lá. Ele pegou seu fusca laranja 1973 (acho que era o 1300, cuja bateria ele desconectava à noite, não sei até hoje por quê), me chamou e fomos à M.D. Games, acho que eram essas as iniciais, pois um coleguinha dez anos mais tarde me diria que a letra D era referente ao apelido dele, Du.

Chegando lá, quase não acreditava estar ali, pois, em virtude de minha tenra idade, 13 anos incompletos, não poderíamos acessar aquelas dependências viciantes sem um adulto por perto (pelo menos eu achava isso, mas os outros meninos não). Meu pai entrou, com seus olhos periclitantes por uma morena (como um medo incontido de que o holograma de minha mãe aparecesse e testemunhasse seu olhar) e perguntou à balconista como o “filhote” (assim me chamava) poderia jogar ali. Ela explicou com toda calma: – Aqui você tem a oportunidade de alugar um videogame por meia hora ou uma hora. Vejam que ainda o aluguel de fitas era indisponível. O termo “locadora” era para aluguel de videogames no local, o que, meses mais tarde, a palavra de ordem passou a ser simplesmente: – João, marca uma hora aí, rapá. Mas havia aquele ar pomposo de que teríamos um momento do videogame só para nós (aqui vocês não imaginam a sensação de ter um Mega Drive só seu por meia hora).

Tinha lá também a opção do Super Nintendo e de um videogame gigante, preto, com um controle maior que o próprio console; sim, amigos, era a primeira versão do Neo Geo (com somente um jogo, Burning Fight), mas para jogar aquilo, precisava ser Cavaleiro de ouro, sendo que eu era de bronze (saudades CavZod!). Enfim, ligaram o jogo do Sonic 2, que, à época, era uma boa evolução do Sonic The Hedgehog. Eu, sedento pela tela inicial, com o Sonic balançando a mãozinha, que na verdade, era uma luvinha, tã tã tã tã tãããããã tãããã … Começa o jogo e eu precisava mostrar que era bom. Torcia para meu pai olhar para a minha tela, assim, olho para trás e vejo ele de olho na calçada a pensar: – Cadê as morenas? Mas não, ele estava olhando para meu jogo. Viro de volta, presto atenção, e meu pai, ali, dividindo seu olhar no meu jogo, não entendendo nada, enquanto sua segunda órbita ficava de olho na loja de roupas da frente, como um camaleão urbano.

Passo a primeira fase, fácil. Vem a fase da indústria (Chemical plant, uma das trilhas mais aclamadas e grudentas do porco-espinho), cujo chefão era chato, mas a gota azul não me acertou, toma aí! Vem a fase da água, que era uma fase rápida para os padrões Sonic, ufa, não caí na água, o que faria eu demorar três minutos a mais para passar essa fase. Jogo mais um pouco e já se passaram vinco e cinco minutos. Chego no capítulo da montanha com vulcõezinhos (Hill Top Zone). Olho no relógio, meu pai me acompanha, estou prestes a passar o level 2, próximo ao chefão e… “Garoto, seu tempo acabou”, diz a balconista. O que me marcou naquele dia não foi somente eu ter chegado tão longe no jogo em meia hora apenas, mas o fato de me sentir um Cavaleiro de bronze jogando aquele game de última geração e ter a companhia do meu saudoso pai (sim, ele faleceria anos depois).

Estava em casa meses mais tarde, era verão de 1992, mais precisamente dezembro. Rememoro haver conhecido pela TV um tal de Master System, o primo dos grandes 16bits. Pedi ao meu pai que conversasse com minha mãe e investigasse a possibilidade da compra do console, pois até meus sonhos tinham criado um. No meu sonho, o console chamava-se Star Quartz, sim, essa visão é quase documental e tão criativa, que até me espantei com minha invenção, uma espécie de Phantom System, com toques de muito, muito azul. Assim, à data de 21 de dezembro de 1992 (podem procurar no youtube as palavras-chave: “batman 2 tela quente 1992”), dia que a Tela Quente da TV Globo passaria o Batman do Tim Burton, com três anos de atraso), em seguida, meu pai me presenteia com um Master System 3 na caixa, com Alex Kidd na memória, wow, que lembrança.

Assim, começa minha saga no 8 bits e a tevê de tubo. Que época, gente. Ah, havia um manual na caixa com um telefone da Tectoy de SP (11 XX XX, seis dígitos bastavam nos anos 90). O que fiz com esse telefone? Vocês verão na próxima parte, to be continued…

Autor: Levi Henrique Merenciano

Levi Henrique Merenciano é linguista e semioticista, aficionado por cinema e games. É dono do canal Cinessemiótica: https://www.youtube.com/cinessemiotica, página especializada em indicação de filmes cults, documentários e lançamentos. É professor da Universidade do Estado de Minas Gerais no curso de Comunicação Social e articulista do site Café com Filme (https://www.cafecomfilme.com.br/).

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